segunda-feira, 5 de maio de 2014

PRÓLOGO


Nem todos tiveram o fim de sua história com a chegada da peste negra na Europa. Esse foi o caso de Darian, que nem estava de corpo presente na Terra; para ele, o fim da peste foi o início de tudo.

Algumas pessoas podem não acreditar, mas todos nós, anjos e humanos, possuímos uma vida traçada ainda no céu em forma de teias, como aquelas que as aranhas fazem. Não importa quantas voltas a teia dê, sempre se encontra em algum ponto e acaba sempre no mesmo lugar. 

Na época da peste negra, as pessoas, por estarem vivendo um momento de muito desespero e dor, achavam que dessa vez estava próximo o Apocalipse. Não acreditavam mais na salvação divina, porque milhares de pessoas sucumbiam diariamente diante da devastadora peste, que chegou a ser comparada ao próprio inferno, ou considerada como um castigo enviado por Deus contra os feitos nefastos dos humanos, punindo indiscriminadamente todos os seres: ricos, pobres, bons e maus. Nesse tempo, incontáveis pessoas apareciam mortas pela manhã e, devido a isso, surgiu na cidade de Londres um burburinho de que o incauto que fosse pego vagando à noite nas ruas era levado pelos devoradores de almas. 

Os boatos se espalhavam tão rápido quanto a peste e as pessoas acreditavam em tudo que ouviam, principalmente se se referissem à morte ou à peste. Passaram então a seguir alguns cuidados que se tornaram verdadeiros rituais, como se trancarem em casa no final da tarde. Nos momentos de desespero, alguns ainda colocavam as mesas ou quaisquer móveis grandes encostados nas portas e janelas, porque acreditavam que poderiam ser abduzidos de alguma forma por esses seres. 

Quem era visto circulando à noite e não amanhecia morto era considerado um deles, um demônio, e era queimado logo depois de ter sua alma lavada com água benta. 

Os governantes, para poder dar sepultura à grande quantidade de corpos mortos pela peste negra e tentar evitar outros tipos de doenças, fizeram uma lei autorizando a cavação de diversas valas nos arredores dos muros da cidade. Essas valas seriam usadas como covas comunitárias, onde um dilúvio de corpos eram jogados e queimados. Podiam-se contar quantas pessoas naquela época conseguiram manter-se ilesas deste “castigo divino”. 

No meio de tanto desespero e irracionalidade, imigrantes vindos de todas as partes da Europa e Ásia viam no fim dessa epidemia uma maneira de enriquecer, trabalhando na reconstrução da cidade, com sua mão de obra cara. Pessoas com algum conhecimento em medicina que não haviam sido infectadas, procurando ajudar as demais, improvisaram e trabalharam em clínicas médicas espalhadas por todos os lados da mórbida cidade de Londres. Um desses era Alan, um jovem e belo rapaz de olhos claros, recém-formado em Clínica Médica. Ele era um dos muitos médicos imigrantes que vieram da Alemanha à procura de trabalho, e via nessa epidemia uma maneira de se estabelecer na profissão. Esses médicos, que usavam roupas e máscaras especiais, passaram a ser a única esperança para milhares de pessoas enfermas, já que Deus havia se voltado contra elas, como pensavam.

Desmoronando a autoridade das leis divinas, moribundos revoltados questionavam o porquê de suas preces não serem atendidas, contudo, desconheciam a verdade escondida por trás dos milagres médicos. A peste não era um castigo divino, era apenas um fato. Foi provocada por falta de hábitos higiênicos e de conhecimentos médicos. Deus não os tinha abandonado, seus anjos os observavam e os amparavam o tempo todo, dia após dia. Entretanto, não era somente eles que os observavam... 

Havia também uma legião de anjos caídos que se fortaleciam com o desespero, a dor e a revolta de algumas pessoas. Em pouco tempo, os homens se odiaram tanto que, se um filho fosse atacado pela doença, seu pai não cuidava dele e vice versa. Simplesmente eram largados à própria sorte. 

Esses anjos caídos ficavam constantemente no encalço dessas pessoas, na mesma sintonia, compartilhando os mesmos sentimentos; e, quando a morte era certa, aguardavam-lhes do outro lado. Mesmo com as Potestades ao seu lado, lutando para resgatá-los, a maioria desses moribundos não queria ser salvos ou, mesmo querendo a salvação, não encontravam a luz, por estarem mergulhados profundamente em sua própria angústia, cegos demais para ver seus anjos salvadores. Assim, ao morrerem, não podiam ser encaminhados ao socorro, permanecendo vagando pelo Umbral. 

Alan se destacava dos outros médicos por sua pouca idade e grande determinação. Muito alegre, otimista e bastante prestativo. Era um dos mais jovens, ou talvez o mais jovem entre eles, com apenas vinte e três anos. Não era um rapaz alto, seus cabelos vermelhos encaracolados que contrastavam com sua pele branca, chamava a atenção por onde passasse. De tanto fumar, era magro, quase esquelético. Comia pouco e quase não dormia. Brincando, costumava dizer aos seus pacientes que teria a eternidade para fazê-lo, por isso precisava estar acordado caso algum enfermo precisasse dele. 

Nesta trajetória de trabalho que chegava a ser quase vinte quatro horas, Alan foi comparado diversas vezes por seus pacientes com o anjo que eles afirmavam ver ao seu lado. E ele sempre respondia a essa gentileza com um largo sorriso. 

Tão perto que os anjos estavam dos humanos e justamente por ser comparado a um deles, Alan despertou o interesse de um anjo em particular, que o observava do céu. Esse anjo tinha como dever resgatar as almas que queriam ser salvas. Ele, então, desceu à Terra e passou a seguir de perto os passos do jovem médico, acompanhando-o em seus afazeres diários. Quando era de seu interesse, o anjo assumia a forma humana, ajudando-o como enfermeira. 

Com o tempo, esse anjo percebeu que havia ficado emocionalmente envolvida com esse humano e com o trabalho que ele desenvolvia, chegando a passar mais tempo em sua forma humana do que na de anjo. 

Com a sua guarda assim aberta, tornou-se presa fácil para a influência negativa de Kesabel, um anjo caído, que a incentivou a ter relações sexuais com esse humano. Levada pelo sentimento de amor e pelas doces palavras de Kesabel, entregou-se a Alan achando que não estaria infringindo nenhuma lei divina. As leis de Deus, no entanto, haviam sido violadas, e o anjo recebeu como punição o pior dos castigos: foi transformada em humana. Somente então compreendeu que havia sido enganada, o que fez crescer em seu peito sentimentos de revolta e raiva até então desconhecidos. 

Grávida, apaixonada e não tendo como voltar a ser anjo, sua única saída foi viver no meio dos humanos, casando-se com Alan para juntos criarem seu filho, um Nefilim. 

Mesmo na forma humana, Bridget, como era chamada, conseguia ver e sentir a presença de outros anjos, assim como a de alguns anjos caídos, como o Belial, o demônio da loucura e arrogância, que se aproximava apenas para provocar e ameaçá-la. 

Por seu filho Darian ser um semimortal e ter passagem entre os dois mundos, passou a ser cobiçado e temido. Belial dizia que queria conquistar a sua alma, por considerá-lo uma ameaça aos propósitos de seu mestre, caso ele fosse para o exército dos anjos da luz. Se fizesse parte do exército das trevas, o Nefilim seria uma peça fundamental na batalha do bem contra o mal. 

Durante os anos que se seguiram, Bridget escondeu a verdade de seu marido sobre o seu passado e o que poderia acontecer a Darian no futuro. Sentindo-se culpada e com vergonha do pecado que havia cometido, Bridget achou que ocultar a verdade seria uma forma de proteger Alan e seu filho dos ataques dos seres das trevas. 

Seu marido, por desconhecer a verdade, começou a acreditar que ela estava enlouquecendo por vê-la, algumas vezes, conversando e discutindo com ninguém. Ele passava a maior parte do tempo no hospital com seus pacientes e, como não achava mais seguro deixar Bridget sozinha tomando conta da casa e de Darian, resolveu fazer de sua residência uma clínica. Já que a peste estava sobre controle, poderia atender outros tipos de pacientes e, assim, acompanhá-la de perto. 

Com passar do tempo, os “ataques de loucura” tornaram-se cada vez mais frequentes, ficando fora do controle. Algumas vezes Alan precisou ministrar-lhe calmantes fortes e em outras, foi preciso amarrá-la. A essa altura, Bridget já não sabia mais distinguir o que era real ou fantasmagórico, não sabia se realmente havia sido um anjo ou se tudo era apenas fruto de sua imaginação. Passou a tomar remédios diariamente, o que fez suas alucinações desaparecerem por quatro anos. 

Naquele dia, a chuva forte e a noite fria de Londres fizeram com que a umidade do ar aumentasse pela manhã. Na pressa de sair de casa e fazer compras, Bridget se esqueceu de tomar a medicação. Voltava sozinha do mercado próximo a sua casa quando, no meio do caminho, foi abordada por Pazuzu, um anjo caído com o poder da possessão do corpo humano. Ela não o reconheceu, achou-o um louco que dizia coisas estranhas e sem sentido. Ele se aproximou repentinamente e a olhou fixamente, com olhos cinzentos e frios. Algo se agitou em sua memória, porém da maneira que era conveniente a Pazuzu, deixando-a imóvel e perdida em pensamentos. 

Durantes esses quatro anos, este ser das trevas perseguiu Bridget com a intenção de cobrar-lhe uma dívida, por considerar que Darian, seu filho, lhe pertencia. Por estar sob efeito dos remédios, ela não conseguia vê-lo, o que não aconteceu naquele dia. 

Uma chuva fina passou a cair e as ruas começaram a ficar alagadas. Algumas pessoas correram para se protegerem, enquanto outras aproveitaram para olhar as mercadorias que os ambulantes dispunham nas barracas no início do dia de trabalho, que parecia ser comum. Porém, foram testemunhas de uma cena bizarra, sem entenderem o que de fato estava acontecendo, já que viam apenas uma pessoa. 

Bridget começou a discutir com Pazuzu e ele, o tempo todo, ameaçava levar a alma de Darian, insistindo no fato dele ser filho de um anjo caído e, por isso, deveria fazer parte do exército de seu mestre.

Atordoada e mesmo descrente, Bridget gritava e olhava ao seu redor para verificar se alguém a ajudaria. Seu desespero foi aumentando e sentiu-se desprotegida ao ver que ninguém se aproximava, enquanto as palavras proferidas por Pazuzu lhe causavam feridas na alma. 

Sacudiu-se para se livrar de seus demônios como um cachorro se livra da água depois de nadar. E, assim que o pensamento a atingiu, foi tomada por um decisivo senso de urgência.

- Preciso salvar meu filho!... 

Temendo que realmente fosse acontecer o que Pazuzu dizia e não aguentando mais o tormento que ele lhe causava, achando que de algum modo estaria protegendo Darian e ao mesmo tempo resolvendo o seu problema, ao ouvir o trovejar dos cascos ecoando nos paralelepípedos jogou-se na frente do coche que passava apressado, suicidando-se. Foi pisoteada pelos cavalos, morrendo imediatamente em meio aos gritos de desespero das pessoas que assistiram àquela cena medonha. 

Ao contrariar mais uma vez as leis divinas, deu início a um sofrimento ainda maior. Bridget morreu sem condições de ser ajudada pelas Potestades que a observavam do outro lado, impotentes diante da sua decisão. 

- Placere tueri filium meum![1] – murmurou Bridget para os anjos da luz, mesmo não os vendo. Em seus últimos momentos, compreendeu haver cometido o maior erro da sua vida.

Resgatada pelos seres das sombras, foi levada ao Vale dos Suicidas, um lugar sombrio que passaria a chamar de casa.

Seu tempo ficou estagnado e passou a sentir, vezes sem conta, as dores sem fim dos seus ossos sendo esmagados pelos cavalos. Agora, no lugar onde estava, não poderia fazer mais nada para defender seu filho. Tinha apenas a eternidade para se culpar e deixar o remorso corroer sua alma.




[1] - Por favor, protejam meu filho!






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